Organizações internacionais estão (involuntáriamente ou não) contribuindo para a perpetuação do Estado totalitário Chinês

Por Vinícius Junqueira, aluno do 2o semestre de Tech

Após inúmeros protestos internos e externos, e o subsequente suposto cancelamento do projeto do mecanismo de pesquisa pró-censura Dragonfly, desenvolvido pelo Google e dedicado ao mercado Chinês (apesar de mais de 900 mudanças no código terem sido reportadas entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019), mais uma vez, organizações e universidades americanas anunciaram parcerias com corporações chinesas em projetos de desenvolvimento do setor de inteligência artificial, mais notavelmente em reconhecimento facial. 

Uma das principais empresas deste setor, SenseNets, faz parte de um grupo que possui contratos públicos oferecidos pelo governo Chinês para desenvolver as tecnologias de identificação que permitem maior eficiência ao seu sistema de crédito social assim como facilitando o processo de homogenização étnica, ativamente combatendo a presença da população Turca Uighur no território, assim como a de praticantes islâmicos no geral, através de campos de “reeducação”. Desde empresas de grande porte já estabelecidas até jovens startups abastecidas com mão de obra de formada em universidades americanas e trabalhadores de empresas como Google e Microsoft, que parecem oblívias ao resultado dessas parcerias, o governo aposta em seu exuberante setor tecnológico para exercer controle cada vez maior sobre esses grupos sociais. 

Uma brecha de segurança revelou dados da SenseNets que mostram que o governo já rastreia 2.5 milhões de pessoas constantemente, sendo um terço deles de descendência turca. 2 milhões de Uighures já foram enviados para os campos de reeducação desde o início de 2017, e o avanço das tecnologias de reconhecimento devem alavancar estes números. 

Ao mesmo tempo o MIT anunciou parcerias com a iFlytek (sob observação por ativistas dos direitos humanos por trabalhar com monitoramento de comunicações eletrônicas) e com a SenseTime, que “coincidentemente” é dona de 49% da própria SenseNets, e abertamente ajuda o governo a desenvolver seus sistemas de vigilância. 

Outras universidades como Yale, Carnegie Mellon seguiram o mesmo caminho, e empresas como Exyn (Software de drones) e Amax (Data center) fizeram parcerias com cientistas e organizações chinesas para desenvolver estes sitemas de vigilância. 

Apesar dos esforços do departamento de comércio americano para impor regulações sobre o desenvolvimento de tecnologias emergentes como reconhecimento facial para restringir seu uso para fins antiéticos, as regras ainda são muito lenientes e vagas para de fato oferecerem qualquer tipo de proteção, o que leva estas organizações internacionais, fomentadas pela alta taxa de investimentos e dados providos pelo mercado e governo chinês, a entrar nestas parcerias sem muito cuidado ou preocupação sobre como as tecnologias que estão sendo desenvolvidas irão ser aplicadas. 

Infelizmente enquanto os regulamentos ainda estão em amadurecimento, o caminho que vem sendo traçado neste âmbito da sociedade chinesa está entregue ao bom-senso das organizações e pesquisadores individualmente, para que garantam a integridade do uso de seus esforços para o bem.